Em 2013 Ricardo Frade resolveu lançar-se num desafio: o de conseguir viajar da Suécia até Portugal sem dinheiro nem telemóvel. Cumpriu o desafio e recentemente lançou Pé Descalço, um livro que não só relata a sua experiência, mas também tem conselhos para aqueles que queiram dar um novo rumo à sua vida.

Ricardo começou o seu percurso em Skellefteå e durante treze dias lançou-se numa viagem em que objetivo era chegar a Portugal. Hoje, além do Pé DescalçoRicardo é coach e empresário, estando envolvido em vários projetos que visam ajudar as pessoas a mudarem de vida. O Espalha-Factos deu um salto até Guimarães e conversou um pouco com este escritor de viagem.
Espalha-Factos(EF): Antes de mais, quem é o Ricardo?

Ricardo Frade(RF): Quem é o Ricardo… O Ricardo é esta pessoa que está aqui (risos)! Estou a brincar.

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Em 2013 Ricardo lançou uma campanha de Crowdfunding de modo a levar a cabo a viagem até à Suécia.

O Ricardo é o resultado de trinta e qualquer coisa de anos de vida e de um conjunto de experiências que se foram acumulando e que foram vividas. O Ricardo começou por ser um miúdo simpático e bem-disposto. Cresceu como um miúdo simpático e bem-disposto, tornou-se professor de música e a certa altura deu algumas voltas na vida, fazendo algumas coisas que acabaram por ser asneiras, de um ponto de vista de gestão, e acabou a ser um professor de música quase falido. Depois mudou de profissão e tornou-se consultor financeiro, tornou-se empresário, tornou-se coach, tornou-se aventureiro, enfim, tornou-se nesta máscula que é hoje.

Portanto eu sou este conjunto de competências e de características que faço hoje na área do coaching, na área do desenvolvimento pessoal, na área da consultoria financeira e mais recentemente na área do turismo, que é outra coisa que me interessa muito e que se vai desenvolver nos próximos tempos.

EF: Em que circunstâncias surgiu o Pé Descalço?

RF: O Pé Descalço surgiu inicialmente como um livro de finanças. Eu em 2000 e qualquer coisa quase perdi tudo. Aprendi muitas coisas na altura, tive a sorte ou a felicidade de encontrar pessoas que me ajudaram e que me ensinaram o que eu não sabia. E quando Portugal entrou em crise em 2011, já eu era consultor financeiro. a intenção era ajudar as pessoas a ultrapassar os problemas delas, aprendendo com aquilo que tinham sido os meus erros. Se eu já bati com a cabeça na parede, as pessoas podem aproveitar o que eu aprendi sem passarem elas próprias pelo mesmo.

O livro surgiu como um livro de finanças, mas à medida que o tempo passava, eu percebia que quer no que eu ia escrevendo, quer no workshop, os feedbacks não eram particularmente entusiasmados. Portanto é uma trabalheira enorme para fazer um livro e dar workshops de coisas que as pessoas não queriam. Faltava a ideia, faltava o fator “wow” de como é que eu faço isto de forma diferente.

«A viagem, no fundo, é o pacote que eu usei para fazer essa transformação do livro técnico para algo mais “comestível”»

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Hoje o Pé Descalço é o resultado e relato dessa viagem.

A ideia surgiu no Natal de 2012 numa discussão com um familiar sobre que prenda daríamos a um outro parente nosso. Eu dizia que lhe dava dois bilhetes da Ryanair e que ele depois comeria dois dias no Lidl e ia a Espanha, a Valência. A pessoa com quem eu discutia dizia-me que não, que isso é impossível e que eu teria que gastar 300 ou 400 euros e que não era possível viajar com menos dinheiro. Então houve um click que me fez pensar que se eu fizesse uma viagem grande explicando às pessoas que mesmo numa situação de limite conseguimos ultrapassar-nos a nós próprios e conseguimos fazer as coisas funcionar de maneira diferente.

Fui ao mapa, procurei um ponto longe que fosse suficientemente perto fazer em três semanas e suficientemente longe para ser um desafio. A Suécia surgiu como um sítio interessante. Pensando na neve, na temperatura e na geografia, já me pareceu um desafio suficientemente grande. E então o livro nasceu desta forma, desta vontade de ajudar as pessoas, mas ao mesmo tempo de o fazer de uma forma divertida, dinâmica e entusiasmante. A viagem, no fundo, é o pacote que eu usei para fazer essa transformação do livro técnico para algo mais “comestível”, se é que assim se pode dizer.

EF: Que recordações guarda da experiência?

RF: Da viagem em si? Ui, dezenas de recordações. Se me perguntar o que mais me marcou, foram as pessoas. Não é um livro sobre como é que eu viajava na Europa. É um livro sobre como eu ultrapasso as minhas dificuldades e como eu posso mover-me através das minhas dificuldades e dos meus problemas e assim alcançar as soluções. Isso aconteceu na minha viagem. Estava na Suécia sem telefone, sem dinheiro, sem computador, sem nada, enfim. “E agora como vou para casa?” E foram as pessoas que me deram boleia, as pessoas que me patrocinaram bilhetes, as pessoas que me acolheram, as pessoas que me ofereceram comida e as pessoas que me deram conselhos. As maiores recordações que ficam são das pessoas.

EF: Por que lugares passou na Suécia?

RF: Ora, eu comecei em Skellefteå, no norte, depois foram 700 kms até Estocolmo. Depois mais 700 kms até ao sul da Suécia, depois foi uma travessia de barco até à Alemanha, depois Holanda, Bélgica, França, Espanha e, por fim, Portugal. Eu sei que me perguntou pela Suécia mas resolvi fazer logo  o boneco todo (risos). A Suécia correu-me muito bem  e muito depressa. Em dois dias estava a sair da Suécia com umas quatro paragens por aí.

EF: Durou quanto tempo a viagem?

RF: No total foram treze dias. Um dia a ir para cima e três a ir para baixo.

«Uma das coisas mais engraçadas que aprendi na viagem é que há gente boa em todo o lado»

EF: Como era o Ricardo antes do Pé Descalço? E depois disso o que considera que mudou?

RF: O Ricardo depois do Pé Descalço é um Ricardo muito próximo do que era antes do Pé Descalço mas mais afinado. Ou seja, eu já era assim: já era positivo e já era “malucamente” destemido. O eu em si não mudou muito, ficou foi mais apurado. Eu ultrapassei muitas coisas, mas a viagem colocou novos desafios que me obrigaram a rever as coisas e a reconfirmá-las ou a ampliá-las.

Uma das coisas mais engraçadas que aprendi na viagem é que há gente boa em todo o lado. É muito fácil dizer-se isso em Portugal quando estamos no nosso conselho, no nosso contexto com a nossa família. Outra coisa é fazer isso através de cinco ou seis países com pessoas de culturas ou origens diferentes. É uma amostra mais significativa e essa foi uma das convicções que saiu mais reforçada.  Vi-me uma pessoa mais calma, vi uma pessoa mais sensível. Não me é muito fácil eu passar por uma pessoa que está a pedir na rua e não me recordar da sensação que era, porque, no fundo, eu estive nessa posição.

Alguém me disse no outro dia: “Ah, mas você esteve, mas não esteve! Você pôs-se lá porque quis! Isso é batota!” Eu convido as pessoas a estarem a 4000 kms de casa sem nada e a dizer-me que é batota porque fui eu que me pus lá. Não! É real! Absolutamente real!

EF: Após o lançamento do livro como foi o feedback?

RF: feedback é interessantíssimo. Eu sou um autor que ninguém conhece, o meu livro é praticamente uma edição de autor, que foi a minha empresa que editou. Mas o que há é um feedback extremamente interessado. Tenho dezenas de pessoas a dizerem-me que o livro mudou a vida delas em vários aspetos, que passaram a ver algo de outra maneira, que têm a vida menos stressada num aspeto, etc. Portanto, o feedback é interessantíssimo. Temos mais de 2500 livros vendidos, temos mais outros 3500 livros em distribuição entre o Público, as livrarias e a nossa própria venda direta. Gostava que fosse muito mais, mas tenho que fazer o meu trabalho de levar o meu livro às pessoas.

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O livro conta ainda com o prefácio do atual Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa

O que sinto é que as pessoas ainda não sabem que o livro existe, não tem grande impacto. As pessoas não o procuram quando não sabem que existe. Tive feedback de uma pessoa que comprou o livro para ajudar uma instituição e o deixou na prateleira. Passados uns meses a vida dessa pessoa complicou-se, a pessoa leu o livro e refere que anulou toda a sua arrogância em duas ou três páginas. Este é o efeito do livro. É um livro que foi lido e que recebeu reviews fantásticas de uma série de personalidades portuguesas, incluindo do nosso (agora) Presidente da República. Mas quando as pessoas contactam com o livro o resultado é fantástico. Entretanto, teremos que suar muito.

«Mas será que o livro é acessível para a maior parte das pessoas? É!»

EF: A quem recomendaria o seu livro?

RF: Eu até vou dizer que o meu livro é muito transversal, mas se tivesse que escolher um público-alvo, eu elegeria três tipos de leitores que são muito fáceis de entender. As pessoas que de alguma forma estão descontentes com a sua vida e que querem mudar (financeiramente, ou por qualquer outra razão), vão encontrar ideias valiosas no livro, se tiverem a ligeireza de ler. O segundo tipo de público-alvo é, claramente, o leitor de viagem; alguém que gosta de ler a história de alguém que viajou. E o terceiro público-alvo é o público que gosta de aventuras reais, ou seja de histórias que não tenham a ver com a viagem em si, mas com a aventura e a descoberta. São estes os três públicos-alvo: a pessoa que quer olhar para a sua vida de maneira diferente, a pessoa que quer ler um livro de viagens e a pessoa que se quer divertir com uma aventura. Mas será que o livro é acessível para a maior parte das pessoas? É!

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Ricardo ao lado de Moreira da Silva

Eu sou mestre de um coro amador e eu tinha sempre em mente o seguinte: se eu quero que o Professor Marcelo faça o prefácio do livro, então tenho que escrever um livro que seja suficientemente bem-escrito, para que uma pessoa letrada se sinta confortável, agradável e bem-disposto. E isso aparentemente foi conseguido, tanto que o prefácio foi feito por ele.

Por outro lado, lembrava-me das pessoas que saem da fábrica às sete da tarde e que vêm cantar connosco no Grupo Coral Santa Marinha da Costa. Eu escrevi o livro também com essas pessoas em mente no sentido que houvesse uma transversalidade muito grande. Tive miúdos de 10 anos e pessoas de 90 anos a dizerem-me que adoraram o livro, tenho intelectuais a dizer que é fantástico, divertido e leve. É um livro que foi escrito para ser transversal, mas sinto que os três públicos-alvo são realmente o aventureiro, o leitor de viagens e a pessoa que, de certa forma, gostaria de olhar para a sua vida de maneira diferente.

EF: Poder-me-ia falar um pouco da Génio Audácia? E da Mundos de Vida?

RF: A Génio é a minha empresa. Nasceu em 2011 quando eu comecei a juntar as várias atividades que fazia num contexto mais empresarial. Comecei a pensar em ter outras pessoas a trabalhar connosco ou comigo (na altura era só eu). A Génio acumula, no fundo, o meu trabalho de consultoria bancária, com o coaching pessoal e agora com a parte da edição de livros.

A Mundos de Vida é uma associação da zona de Famalicão que trabalha várias valências mas cuja valência mais interessante é o acolhimento familiar. Eu como professor, na altura, tinha muito interesse nesta área, aproximei-me um pouco da Mundos de Vida e conheci o trabalho deles. Eu e a minha esposa somos neste momento uma familia de acolhimento lá, portanto é um projeto que conhecemos por dentro. É um projeto que procura crianças que, pelas mais diversas razões, tiveram que ser retiradas às suas famílias e lhes dá uma “família emprestada” para eles crescerem e desenvolverem-se de forma equilibrada, de maneira a que se depois puderem voltar para as suas próprias famílias elas sigam como um catalisador de mudança.

É um projeto em que as crianças vivem connosco como filhos emprestados, e que é único em Portugal. Mais nenhum projeto trabalha da mesma maneira. É uma instituição alinhada com as melhores práticas europeias que têm um enorme estudo técnico sobre o assunto. É uma instituição que merece todo o nosso apoio e que, por nos ser muito próximo, resolvemos apoiar.

Uma das coisas que aprendi com os meus mentores há muitos anos é que nós somos muito mais felizes quando damos e partilhamos aquilo que temos. Na maior parte dos meus projetos eu partilho uma parte do que ganhamos e este não seria exceção. A Mundos de Vida surgiu aqui como uma entidade que nos parece que faz todo o sentido em apoiar.

«Eu pessoalmente realizo-me a ajudar as pessoas e a melhorar as suas vidas»

EF: Se o Ricardo não fosse escritor, consultor financeiro e coach, o que seria?

RF: Viajante (risos). O mote da minha empresa diz tudo. Eu pessoalmente realizo-me a ajudar as pessoas e a melhorar as suas vidas. Vou-lhe dar um exemplo muito simples. Estamos neste momento a desenvolver um trabalho-piloto com algumas escolas cujo nome é Lâmpada Juvenil. É um programa em que sujeitamos os miúdos a um conjunto de filmes de histórias reais com pessoas que fizeram histórias extraordinárias. Trabalhamos os conceitos de cada filme com eles e no final fazemos uma viagem que consolida isto tudo. Qual o foco? Fazer a vida dos miúdos mudar. É fazê-los olhar para a vida de outra maneira.

Eu teria sempre uma qualquer atividade profissional que, de alguma forma, passaria por ajudar os outros e melhorar as suas vidas. Porque é isso que me dá gozo. Dá-me gozo ver os meus clientes a ganhar mais dinheiro. Dá-me gozo ver as pessoas com quem faço coaching e fazer a vida delas passar para outro patamar. Dá-me gozo ver as pessoas a ler o livro e a dizerem-me que, de certa forma, mudaram a vida delas por causa disto ou daquilo. É isso que me realiza, fundamentalmente dar a volta à vida dos outros. Não sei exatamente que forma teria [o que quer que eu fizesse] mas acho que passaria por isso.

EF: Além dos projetos referidos anteriormente há mais algum em que esteja envolvido?

RF: Sou mestre do coro, tenho estes novos projetos a nível de coaching (entre os quais o Lâmpada Juvenil a nível das escolas) e existe ainda a vertente turística que estamos a desenvolver na empresa. Tivemos alguns investidores estrangeiros a viver em Portugal e que nos pediam para procurarmos investimentos para eles e para organizarmos a logística. Correu muito bem. Eles próprios perguntaram-nos se não podiam vir só numa perspetiva mais turística e nós descobrimos que se calhar havia aqui uma oportunidade de negócio que poderíamos aproveitar.

Além disto tudo o Ricardo Frade é, na base, empresário. E este bicho do “empreendedor-empresário” está sempre a trabalhar nesta cabeça. O projeto de turismo é um projeto novo, vamos ver no que dá. E eventualmente o desenvolvimento de mais programas de coaching (com pais, miúdos, empresas, empresários, etc.).

«Eu costumo dizer que as empresas certas funcionam com as pessoas certas»

EF: Onde se vê daqui a dez anos?

RF: Onde me vejo daqui a dez anos… Vejo-me a fazer quatro ou cinco coisas, vejo-me com mais pessoas a trabalhar comigo e vejo-me com uma equipa. Eu costumo dizer que as empresas certas funcionam com as pessoas certas. Eu vejo-me daqui a dez anos com uma equipa de 10 a 15 pessoas altamente motivadas e apaixonadas pela ideia e a fazer as várias áreas da empresa funcionarem.

Vejo-me com mais tempo para me dedicar aos meus e mais tempo para fazer aquilo em que especificamente sou muito bom. Neste momento faço muita coisa na qual não sou bom de todo porque somos três ainda na minha empresa. Mas vejo-me a fazer mais coaching, vejo-me a ter um trabalho mais próximo das pessoas e menos burocrático, menos conjuntural e de menos “gestão pura”, por assim dizer. De menos processos, menos candidaturas, menos contabilidade, menos essas coisas todas e mais trabalho puro com as pessoas que é isso que me dá mais gozo.

Vejo a empresa a evoluir, e ainda vejo uma outra coisa que é uma meta a longo prazo que temos: nós queríamos que a GA se constituísse a certa altura como um ninho de coisas mais sociais. Gostávamos que a empresa tivesse as linhas de negócio a funcionar e a gerar retorno o suficiente para podermos criar estruturas, infraestruturas ou entidades na área social.

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“Eu pessoalmente realizo-me a ajudar as pessoas e a melhorar as suas vidas”

Vou-lhe dar um exemplo tão simples: em Portugal existem muitas instituições a trabalhar com crianças, muitas instituições a trabalhar com idosos, muitas instituições a trabalhar com mães solteiras, mulheres abusadas, etc. Mas vejo muito poucas instituições a trabalhar especificamente com a família (no sentido mais tradicional) que agora nesta fase de 2011-2016 passou por provas duríssimas (falando da pobreza). Houve imensas famílias a passar por situações dificílimas e não há muitas instituições que trabalhem com eles. É uma área onde eu gostava de desenvolver trabalho.

Por isso vejo esta ideia do empresário a gerar retorno, a tratar bem os cliente e os colaboradores e sendo visto como socialmente responsável. E ainda a gerar retorno para que haja uma devolução social daquilo que a sociedade nos dá a nós enquanto empresa e enquanto pessoas. A minha visão passaria por desenvolver as ideias de negócio que temos, para poder eventualmente agregar novas, encontrar pessoas que são barra nessas áreas e pô-las a trabalhar connosco. E ainda ao mesmo tempo libertar verbas para a área social, para a área do investimento em startups e para devolver à sociedade aquilo que ela nos dá a nós.

«As viagens são momentos únicos de aprendizagem e de libertação pessoal»

EF: Tem algum conselho para quem estiver a pensar fazer uma viagem?

RF: Divirtam-se (risos). As viagens são momentos únicos de aprendizagem e de libertação pessoal. Ah, um conselho, mas é para quem não deve fazer viagens: eu acho que as viagens têm que partir de dentro. A magia das viagens parte quando fazemos as viagens que queremos. As viagens devem ser momentos de aprendizagem. Quando é simplesmente uma coisa para inglês ver não tem grande piada. Portanto, o meu conselho é este: divirtam-se no sentido de fazer a viagem, de ir saborear e de aprender com ela. Mais outro conselho para as viagens: simplifiquem! A maior parte das pessoas viaja com cinco mudas de roupa e três pares de sapatos para três dias. Se as pessoas soubessem como é libertador fazer uma viagem com uma mochila às costas em vez de quatro sacos…

Mas essa também é uma mensagem do livro para toda a gente. A vida é muito mais simples do que nós achamos. Nós somos felizes com muito menos coisa do que achamos. Podemos ter todas as coisas do mundo, não há nenhum problema! Mas muitas pessoas fazem viagens onde a experiência perde a piada e anda-se mais a “penar” do que a viajar. Por isso divirtam-se e simplifiquem!

“Portanto, para os escritores de primeira viagem a sugestão é simples: escrevam com o máximo de qualidade, mas também com o máximo de autenticidade” 

EF: E que conselho tem para os aspirantes a escritores?

RF: Isso é mais complicado… Nesta viagem também acabei a cruzar-me com muitos outros “escritores de viagem”. Escrever em Portugal é uma coisa muito exigente pela perspetiva de que eu tenho que escrever um livro “bom”. É importante que o livro seja bom.

Se eu quiser escrever um livro para dar aos meus amigos, pronto, então escreve! O conselho é: atira-te a isso, escreve e pronto. Mas se estamos a falar de escrever uma perspetiva mais profissionalizante, ou mais pensada no sentido de eu querer que o meu livro chegue às pessoas, há muitos desafios pela frente. E o maior desafio é o marketing. Se as pessoas estiverem dentro da caixinha à espera que eu arranje uma editora, a editora vai fazer o trabalho por mim. Esqueçam!

Ou se é o José Rodrigues dos Santos e aí qualquer editora quer porque sabe que vai vender meio milhão deles, ou então se pensarmos em que “Eu sou um Zé-Ninguém, ninguém me conhece” e decidir levar uma obra a uma editora e essa editora vai ligar a máquina do marketing e vai fazer imensa publicidade na televisão… Não vai acontecer!

Portanto, para os escritores de primeira viagem a sugestão é simples: escrevam com o máximo de qualidade, mas também com o máximo de autenticidade. O livro ou é vosso, ou vai ser mais um no monte. Preprarem-se para correr muitos quilómetros e fazer muitas apresentações e façam disso um objetivo. Façam disso um processo normal.

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“O Ricardo depois do Pé Descalço é um Ricardo muito próximo do que era antes do Pé Descalço mas mais afinado”

Há quem me pergunte “Mas como é que vendeste 1500 livros? É pouco!”. Mas para um escritor de primeira viagem em Portugal, não é tão pouco quanto isso. Aliás, a maior parte das pessoas não passa dos 500. Nós temos feito um trabalho muito forte, começamos por encontrar estas pessoas que validaram o livro. Não é a mesma coisa ter um livro com o prefácio do meu primo, ou com o prefácio do Professor Marcelo Rebelo de Sousa.

Todo este trabalho de marketing foi desenhado para que nós pudéssemos fazer chegar o livro a muitas pessoas. É um trabalho muito exaustivo. Mas depois também dá muito gozo. Chega uma altura em que o processo se torna automático e a palavra começa a passar. Se as pessoas querem escrever um primeiro livro e querem ter sucesso com ele, preparem-se para arregaçar as mangas e fazer coisas diferentes. Porque senão, fazem uma apresentação na FNAC do Porto e outra na FNAC em Lisboa, mas ninguém compra. Como é que as pessoas compram se não conhecem?

Como dizia há bocado, o nosso trabalho é fazer com que as pessoas descubram o livro. O nosso livro é suficientemente bom para se vender sozinho, desde que as pessoas saibam que ele existe. O marketing será o maior desafio que cada novo escritor em Portugal vai ter nos próximos tempos. E não há dúvida que será o ponto de viragem porque, da maneira como funciona, nós estamos a chegar a um ponto em que começamos a ter pedidos suficientes para não sermos nós a trabalhar tanto. É uma questão de foco: se eu quero que o meu livro chegue às pessoas tenho que fazer a estrada. É como as bandas: se não saírem da garagem ninguém vai comprar o disco. O conselho é este: muita coragem, um plano muito definido e força!

in: https://espalhafactos.com/2016/02/09/entrevista-ef-ricardo-frade/