Dia 7 – A maratona do camião

“Vilnis ofereceu-se para dividir o seu almoço comigo, generosidade que aceitei, sem saber bem o que é significava… onde raio é que ele tinha o almoço? Descobri pouco depois, quando o vejo tirar um fogão (sim, daqueles de campanha, com um bico apenas) de um armário e a montá-lo no meio da cabina! Abriu o tecto de abrir, no topo do camião, à laia de chaminé, pegou numa panela, em algumas caixas de plástico que estavam no frigorífico, cortou uns legumes frescos, juntou água e voilà, sopa de carne ao lume!

Já alguma vez vos disse como odeio sopa de carne?… Pois bem, ali estava eu com ela à frente, preparado para mais um passo fora da caixa. Só não sabia o que me esperava! Ao meter uma colher de sopa à boca tive uma epifania culinária: como é que raio aquilo podia ser TÃO BOM?! Sim, era sopa de carne; sim, tirávamos os pedaços de carne para um prato e comíamos à mão entre as colheradas de caldo; e sim, o sabor era fabuloso! E tinha sido feita num camião… Onde é que esta receita tinha andado toda a minha vida?! Escusado será dizer que comi e chorei por mais. Mas além do sabor em si houve outra coisa que me aqueceu o coração: aqui estava aquele homem, que nunca me vira, e que decidira partilhar o seu espaço, o seu dia e a sua comida comigo, de forma totalmente altruísta e despreocupada… Marcou-me a sua generosidade, a sua transparência e a forma humilde como tudo aqui se estava a passar. Muito obrigado, Vilnis, muito obrigado!"

in: Pé Descalço