Dia 3 - Ir para sul, ir para sul, ir para sul...

“Pi-pi, pi-pi, pi-pi… são duas da manhã!, como que sussurra o meu relógio. Dei um salto na cadeira, peguei na mochila e afins e fui até à gare exterior, onde o comboio chegaria em cinco minutos. Ah, já referi que estava frio?… Pois bem, os cinco minutos de espera foram a situação fisicamente mais extrema que passei na viagem, ou melhor, na minha vida! Se durante o dia tinham estado -20ºC e a temperatura já era bem mais baixa quando tinha estado à espera do Y-bus, agora estava mesmo mesmo mesmo MUITO frio… cerca -30ºC, estimei na altura. Em um minuto tremia como varas verdes, pelo que decidi andar pela gare em passo bem acelerado para aquecer. Foi em vão: quando o comboio chegou eu sentia-me fisicamente muito estranho e encolhia conscientemente a língua para não me cortar tal a violência com que batia descontroladamente os dentes! Nunca sentira nada parecido, não sei se estava em hipotermia ou só lá perto, mas que era algo assustadoramente novo, era! Procurei o revisor e tentei explicar-lhe a história, mas foi uma tentativa no mínimo hilariante: eu tentei falar, sim, mas não consegui articular as palavras direitas, só batia os dentes! Ele lá percebeu que eu queria ir para Estocolmo mas que não tinha bilhete nem dinheiro, pelo que me explicou que assim não podia embarcar, mas eu não estava disposto a desistir: dizem que é quando estamos no limite que a nossa verdadeira força se solta, pelo que pedi outra vez que me deixasse seguir viagem! Pedi, simplesmente: já não se tratava de contar a história ou de ele gostar do projecto, tratava-se de eu sobreviver e sair dali ao mesmo tempo, que era o que mais queria! Talvez por me ver naquele estado, ou por me ver tão determinado a ultrapassar aquela situação, o revisor mudou de ideias: mandou-me entrar, disse-me para procurar um lugar vazio e explicou que passaria para falar comigo depois… Se passou ou não não sei: sei apenas que encontrei dois bancos livres, poisei as minhas coisas, tirei umas fotos, tomei umas notas no caderno, cobri-me com o saco-cama e encaixei-me meio torcido entre a janela (e o aquecimento por baixo dela) e o apoio de braço… Adormeci em poucos minutos."

in: Pé Descalço