Dia 2 – Skellefteå…e agora?

“Fui à procura de uma solução para almoçar, que a fome apertava e Nestum não era almoço digno. Comecei por propor na cantina da universidade umas horas de trabalho em troca de uma refeição… não. Aliás, “não” era uma palavra que me acompanharia durante a viagem, à qual há muito aprendera a resistir e a ultrapassar com uma simples palavra inglesa, “next!” (próximo!), pelo que atravessei novamente a ponte e decidi fazer a mesma proposta em restaurantes da cidade.

 

Comecei por fazê-lo num restaurante de sandes: “Olá, chamo-me Ricardo, sou de Portugal e estou a fazer um projecto… blá, blá, blá (como vocês já sabem). É possível trabalhar aqui uma ou duas horas em troca de uma refeição?”.
A menina simpática que me recebeu pediu que explicasse outra vez, conferenciou com a colega em sueco, e acabou por me explicar que não podiam aceitar… podiam era dar-me uma sandes, se eu achasse bem! “Por mim pode ser!”, e foi quase a babar-me que a vi encher um pão enorme de tudo o que havia na bancada!!! Sim, ter apenas uma refeição de Nestum na mala muda a forma como vemos o mundo, faz-nos sentir MESMO o que significa não ter o que comer, não saber o que se vai comer… Passa a ser algo real e muito palpável, pelo menos para mim passou, e levou-me a olhar para a minha vida e a agradecer tudo o que tenho e que assumo como garantido de uma forma diferente, com uma gratidão real e profunda! E já agora, a agradecer às meninas simpáticas que ali me ajudaram como não imaginam!!"

in: Pé Descalço