Dia 11 – Um prato de dobrada

Devo confessar que estava a ficar preocupado: depois de andar a todo o gás pela Suécia, Alemanha, Holanda e Bélgica, e até França, parando apenas porque eu queria, ali estava eu “encalhado”! Caramba, seria assim tão difícil sair de Paris para Sul?! Que raio se passava?! Para ajudar à festa a barriga estava outra vez a queixar-se, e com razão: em 24h só comera uma sandes, um pacote de bolachas e três iogurtes, apesar de ter andado quilómetros a fio com a tralha às costas! Eram estes os meus pensamentos no momento em que decidi mudar de sítio e procurar uma solução para o almoço, e foi neles que fui remoendo enquanto subia a rua… até que me apercebi: “espera aí, tu estás a ter pensamentos idiotas e derrotistas, estás a queixar-te e a gastar energia com o problema e não com a solução… PAROU!”.

Controlar o que penso, detectar auto-conversas destrutivas e padrões de pensamento nocivos, que me levem num rumo diferente do escolhido, tudo isto são hábitos que criei nos últimos anos e ensino aos meus clientes. Nenhum atleta começa a maratona a pensar “vai ser horrivelmente difícil, vai doer MUUUIIIITTTTOO e vou perder!”, porque se o fizerem estão arrumados. Qual é a solução? Pensar no que queremos, direcionar o pensamento para a busca da solução e, se no limite o sentimento persistir e nos fizer voltar ao caminho errado, falar alto connosco próprios, desvalorizando e/ou ridicularizando o problema e auto-convencendo-nos (é mais fácil se nos ouvirmos realmente) de que vamos dar a volta. Foi o que fiz, tal era a intensidade do sentimento de azar e derrota: “Vá lá, deixa-te de fitas! Fizeste já mais de 2.600 kms, encontraste sempre soluções, pessoas e recursos. Aqui a cultura é diferente, sim, e isso causa confusão e vai obrigar-te a encontrar novas soluções, mas, que diabo!, abre os olhos e procura-as, só assim as encontras. Elas andam aí, de certeza!!!Por isso anima-te, faz um sorriso, endireita-te e levanta a cabeça, hás-de descobrir o caminho, ele aparecerá como até aqui!!”. Imaginam o que pensariam os outros transeuntes ao ouvir-me falar alto, rua fora? As caras de espanto deixavam antever que alguma reprovação social deveria haver, pelo menos, mas sabem que mais? Eu não queria saber! Se a minha felicidade dependesse do que os outros pensam de mim estava a abdicar da minha vida para as vontades dos outros! Além disso eu sabia que funcionava, ponto, e sabia que fora da zona de conforto é que encontraria as soluções, e foi com este espírito que continuei em direcção à igreja.

in: Pé Descalço